Drummond chamou-a de duas luas. E a bunda ficou também assunto de
verso, quando terreno seu era calçadão, praia e fio dental. O fio dental na
verdade foi a revolução francesa da bunda. Feito exclusivamente para a bunda,
ajudou-a libertar-se, para que se mostrasse toda, avantajada, sensual, de
responsa. E foi-se logo embora o tempo que a bunda vivia de baixo de sete
anáguas e tantos saiões. A bunda trocou tudo isso, serelepíssima, pela calça
jeans justa, marcando-lhe o contorno; e pela mini-saia, provocando meio mundo
num movimento de sobe e desce, sensualizando a popa. A bunda simplesmente se
tornou o máximo. Primeiro passo para a consagração.
Intelectualizou-se
logo-logo como nome de revista, porque os caras só pensavam na bunda. Bundas
foi nome de revista e matéria de uma edição inteira. Dizia a turma do Pasquim,
que fazia a revista Bundas: você verá bundas na Caras, mas jamais verá caras na Bundas. E tocaram a traçar uma tipologia das bundas.
Tudo enriquecido com ilustração para tornar fácil identificar um tipo delas por
aí a fora. Basta ver uma bunda, que já se sabe, sem erro, de que tipo se fala.
Mas há também por aí o Guia Ilustrado das bundas, mais atualizado, esse só se
vendo, e são elas, enumeradas, classificadas e catalogadas em categorias
tipológicas que correspondem bem ao que se vê e imagina. Tem a mole, a caída, a
tábua, a siliconada, a grande, a photoshopada ou virtual, a saúva, a pequena e
a empinada.
Bunda
também é nome próprio. Nome de um detetive que tinha uma tão, mais tão
avantajada, que caiu como codinome, Jaime Bunda, o detetive, também nome do
romance do qual é personagem, de autoria do escritor angolano Pepetela (no
Brasil saiu pela editora Record). Um livraço, e não pense que para comportar o
tamanho da bunda, mas pela qualidade da história, que descamba para a crítica
da herança colonial portuguesa na África. E de bunda se pode dizer mais, em
consulta a Cascudo, um pasquinista, Sérgio Augusto, reuniu os mais de trocentos
nomes que a bunda pode ter: poupança, fon-fon, bumbum, nádegas, assento,
traseiro, busanfa, derriere (esse afrancesado), são alguns deles. Contou mais
de 140 formas diferentes de se dizer bunda. Outros apostam que se pode chegar
há mais de duzentas formas, o que prova que a bunda é coisa comentada, falada e
dita, e de tantas maneiras.
A
bunda é inesquecível. Falacíssima. É bem coisa de brasileiro. Não que os outros
não a tenham. Apesar de bundas iguais as nossas não serem vistas em canto
nenhum – tanto que as mulatas brasileiras vivem no topo do ranking. Por aqui a
bunda é reverenciada, adorada, é até paixão nacional, formando palanque com a
praia, a cerveja e o futebol. Até ganhar atributos de fruto, ganhou; pois o que
é a mulher melancia senão uma popozuda que a natureza assim fez na formatação
peso e tamanho de uma melancia? Ou quem sabe o silicone e a prótese ajudaram...
e há também as similares menos avantajadas: pêra, uva, maça, um desbunde que é uma verdadeira salada
tropical.
Por
Viviane Nunes


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